Recebo só hoje a notícia de que Abrahão Yazigi, veterano da Revolução de 1932, morreu em 30 de novembro. Curiosamente, a informação me chega no momento em que leio o livro Os Heróis, de Paul Johnson. O revolucionário, estudante de engenharia que interrompeu o curso na USP para lutar no levante, poderia ter um capítulo só para si.
Falar da Revolução de 1932 é uma experiência curiosa. Sempre que tento escrever sobre este assunto, o texto soa como ufanista. Mas é um tom apropriado para uma história memorável. Composta sobretudo de histórias individuais de coragem. Como a de Abrahão. Doutor Abrahão.
Vivo numa cidade onde a maior ambição das pessoas é se transformar num funcionário público e passar o resto da vida na escuridão da ignorância, às custas do estado e se esquivando de qualquer esforço por nada que não seja o dinheiro público. Por isso, o exemplo do doutor Abrahão Yazigi ainda me impressiona.
O levante de 1932 foi uma atitude altiva, de um povo que lutava por uma causa justa mas ainda parece um tanto quanto envergonhado de se orgulhar dos próprios feitos.
Quando os gaúchos comemoram a fracassada Revolução Farroupilha, estão nos dizendo que continuam querendo se separar do Brasil – e ninguém se separa por se achar inferior. A Guerra Civil de 1932 tinha uma causa justa.
Os voluntários paulistas se embrenharam num esforço de guerra que mobilizou a indústria do estado e comoveu até mesmo as senhoras da alta sociedade, que doavam suas joias para financiar os combates Foram quase mil mortos, a maior parte do lado revolucionário. São Paulo lutava pela democracia. Tentava derrubar um ditador em formação, Getúlio Vargas, e convocar uma Assembleia Constituinte. Sem o prometido apoio de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, a empreitada falhou.
Foi o doutor Abrahão quem me chamou a atenção para um detalhe: a revolução já estava perdida depois do primeiro dia. Sem conseguir chegar ao Rio de Janeiro, capital do país, as tropas não tinham mais como derrubar o governo. Ainda assim, e mesmo traído, São Paulo batalhou altivamente durante três meses. A essa altura, a revolução já estava militarmente derrotada porque, em vez de avançar, as tropas paulistas recuavam dentro do próprio território. Surgiu uma guerra de trincheiras. Mas às vezes, me ensinou o doutor Abrahão, um guerreiro não luta por outra coisa senão sua própria honra.
Um mês antes de morrer, o veterano, filho de sírios, foi homenageado pelo Instituto de Engenharia de São Paulo e discursou diante do prefeito Gilberto Kassab. Quando aceitou receber um desconhecido estudante de jornalismo em seu confortável apartamento no Morumbi, no ano passado, apresentou-se humilde, diminuiu os próprios feitos. Falava seis línguas além do português: inglês, francês, alemão, italiano, holandês e árabe.

Homenagem a soldados constitucionalistas em Campinas
Eu havia ligado, dias antes, para marcar a entrevista. Ele pediu um tempo para que pudesse reavivar as memórias. Separou recortes de jornal e trechos de um pequeno livro que escreveu – uma espécie de autobiografia destinada apenas às pessoas mais próximas. Abrahão, sempre sereno, nunca perdeu a lucidez.
O poema que dá nome a este blog conta a história de uma trincheira imaginária, do soldado que não se entregou até o último momento. Este soldado bem poderia ser Abrahão Yazigi, que lutou até o último dia no front sul, o último a cair. Ele embarcou no último comboio de volta para a capital.
E o esforço valeu a pena?, perguntaria o covarde pragmático – o pior tipo de covarde. Sim, valeu. Se houvessem desistido em um dia, os paulistas teriam se transformado em motivo de chacota e fortalecido o regime ditatorial. Depois da brava resistência, Getúlio Vargas cedeu: convocou a Assembleia Constituinte – que, dentre outras conquistas, asseguraria o voto feminino.
A militância política hoje é, hoje, monopólio da esquerda. E transformou-se na mera luta pelo poder, custe o que custar. O tipo de política feito por Abrahão, um democrata nato, morreu.
Os vagabundos que enfrentaram o regime militar com armas lutavam por uma ditadura pior. Nos obrigam a sustentá-los com nosso dinheiro. E passaram a vida brigando para por as patas no poder.
Os heróis de 1932 pagaram pelos próprios riscos. E, cumprido o dever, retomaram suas vidas. Terminada a batalha, doutor Abrahão Yazigi voltou à faculdade. Formou-se, criou filhos e netos. O heroísmo reside precisamente nesta postura.
Doutor Abrahão costumava lembrar que a Revolução foi um episódio de circunstâncias únicas. “Nosso tempo já passou”, repetia.
Se tivesse tombado em combate em 1932, Abrahão Yazigi Filho teria vivido apenas 23 anos. Deus recompensou-o com uma vida proporcional ao tamanho da coragem que sempre ostentou.
P.S: Depois que postei esse texto, descobri que Francisco Mascaro, veterano de Campinas, morreu 25 dias antes do doutor Abrahão. Tinham a mesma idade. Mascaro também foi herói: quase morreu de pneumonia, foi salvo por sorte. Assim que se recuperou, voltou ao combate.
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