Aos que morrem em vida

Poucas décadas atrás, ainda era possível encontrar facilmente exemplares do povo outrora chamado de paulista, que carregava consigo um apreço inegociável pela liberdade e uma noção clara das responsabilidades individuais.

O capitão Gino Struffaldi, de 98 anos, era um dos últimos representantes desse povo. Partiu ontem.

Foi, além de herói de valentia incomparável, um homem ideais firmes e cavalheiro. Conquistou dona Dinorah na juventude e a manteve apaixonada por 72 anos. Foi um veterano ainda capaz de se indignar depois de tantas décadas. Um descendente de italianos que tomava sempre um “aperitivo” antes das refeições. Benevolente para dar uma gratificação de Natal ao gari da rua e convidar o desconhecido e intrometido estudante de jornalismo a dividir a mesa com sua família.

Até esta quinta-feira, o capitão Gino mantinha o comando simbólico da Sociedade de Veteranos de 1932, a nos lembrar teimosamente que há alternativa à subserviência e à covardia. Não lhe faltaram as merecidas homenagens em vida. Em uma delas, como já publiquei aqui, declamou o poema “Jovens de 32″ de Paulo Bonfim. Era como se falasse aos colegas que tombaram. E a nós.

Em que ossário a vossa audácia clama aos que dormem por fuga?
Em que ordem a vossa audácia grita aos que morrem em vida?
Em que luta o vosso luto amortalha os tempos novos, ó jovens de 32?

A pergunta do capitão continuará a ecoar.

O cosmos e o menino

Sei de poucas coisas nesta vida. Uma delas comprovei cientificamente: meu quarto não se arruma sozinho. Tentei não recolher as roupas sujas, ignorar a poeira e acreditar que o lençol da cama se esticaria por conta própria. Nada.

Curioso: com o universo, que é um pouco mais complexo do que o meu quarto, aconteceu o contrário – o que só pode se explicar pela intervenção de uma força racional.

O Big Bang espalhou os cacos da matéria-prima por aí. Esses pedaços tendem a se separar, e cada vez mais rápido, dizem os especialistas na coisa. Pois bem. Corta-se a cena na explosão primordial. Quatorze bilhões de anos depois, cá estamos: nós, com nossos computadores,  foguetes e os dribles do Maicosuel. Uma força vital sustenta micróbios, tamanduás, rinocerontes e até mesmo espécimes como a senhora Dilma Rousseff. As leis da física, universais, valem aqui ou nos confins do cosmos.

Disso surgem três conclusões imediatas:

1) O universo é mantido por uma ordem lógica, racional. O complexo ordenamento daquilo que eram apenas partículas rebeldes, que tendiam à dispersão aleatória, não se encaixa nas leis da termodinâmica e só faz sentido em um sistema gerido por uma racionalidade externa à natureza – sobrenatural, portanto.

2) Essa força superior não dá muita bola para o meu quarto.

3) Irracional é apostar que o nada, combinado aleatoriamente com outra porção do nada, gerou um universo infinito, formas de vida complexas e regras universais da física que mantêm tudo isso funcionando articulado por um delicado equilíbrio. Ao contrário do que o materialismo raso quer que acreditemos, a aposta do teísmo é a aposta na racionalidade.

O Cristianismo dá ainda um passo adiante.

Uma ordem universal tão magnífica, tão insondável, se materializou na Terra na figura frágil de um menino pobre, por deliberação de uma divindade onipotente que amou a sua criação a ponto de oferecer a ela uma correção de rumos, uma expiação do mal que, desviando-se do propósito original, a humanidade havia perpetrado.


É notória a superioridade do Cristianismo como fonte de inspiração para a música e a literatura. A beleza da história de Jesus não se compara à de Maomé, um pedófilo assassino, ou a de Buda, uma espécie de Paulo Coelho do Japão imperial Nepal agrícola. Há quem se contente com isso: o Ocidente foi mais longe porque tem em Cristo seus marcos civilizacionais.

Mas a história da divindade onipotente que se faz homem só merece ser lembrada por um motivo: ela é verdadeira. É tão real que, dos apóstolos de Cristo, só João morreu naturalmente: martirizados, os outros entregaram a própria vida para propagar a poderosíssima mensagem trazida pelo Salvador.

O 25 de dezembro não é tempo de pedir. É tempo de ser grato a Deus pela Sua misericórdia infinita.

Feliz Natal.

A farsa do Islã pacífico

Boa parte dos especiais jornalísticos em referência aos 10 anos dos atentados de 11 de setembro se dedicou a mostrar o aumento da chamada islamofobia no Ocidente. Como se os seguidores de Maomé fossem vítimas, e não autores dos maiores ataques terroristas da história. Como se, depois de ver familiares e amigos mortos de forma bárbara, os americanos devessem se limitar a estender a mão para aqueles que os odeiam e querem destruir.

Sim, os terroristas são uma minoria entre os muçulmanos. Mas, de forma alguma, os assassinos de 11 de setembro eram lunáticos, desvinculados de qualquer contexto religioso e social. Eles eram herdeiros de uma tradição bélica que o Islã traz desde seu nascimento. Não por acaso, os ataques foram comemorados de forma efusiva em países árabes e do norte da África. Não por acaso, muitos governos islâmicos se transformaram em patrocinadores do terrorismo.

Qualquer crime cometido em nome do Cristianismo não pode ser atribuído à pregação de Jesus, mas à distorção de suas palavras. Já o Islamismo nasceu como uma religião expansionista e militarista; um exército cruel, comandado por ninguém menos do que Maomé em pessoa. Os muçulmanos ocuparam por séculos a Península Ibérica, depois de varrer povos inteiros do mapa no Oriente Médio. Só foram chutados de lá depois de uma reação  tardia dos europeus. Hoje, os cristãos são o grupo mais perseguido do mundo, numa comparação com qualquer outra religião ou etnia. E os principais algozes dos cristãos são justamente os islâmicos. Mas ninguém fala em “cristofobia”.

Não existe uma expressão equivalente para “estado laico” em árabe. Nenhum país islâmico oferece a outras religiões a liberdade que os maometanos exigem no Ocidente.  As palavras de Maomé incitam seus seguidores a conquistar todo o mundo para seu califado universal, sob a sharia.  É possível ser muçulmano e não-violento, mas dizer que o Islã é uma religião pacífica constitui um grave engano. O que, no caso dos jornalistas preocupados em distorcer a natureza do islamismo, pode receber outro nome: cumplicidade com assassinos.

A reação – A opinião pública média foi contrária à Guerra do Iraque e criticou a condução da Guerra do Afeganistão. Mas, nos dois casos, as intervenções militares foram de uma eficácia espantosa: o Talebã e o regime de Saddam Hussein caíram em poucas semanas, esmagados pelo poderio militar americano. As guerras só duraram tanto porque terroristas muçulmanos começaram a explodir a sua própria gente. É só ver as estatísticas: a maior parte das mortes nas guerras pós-11 de setembro foi causada por islâmicos que, do alto de seu humanismo, resolveram assassinar inocentes do seu próprio povo.

George Bush, o sujeito que fez o histórico discurso acima nos escombros do Ground Zero, é uma figura subestimada. Foi à guerra porque era coisa certa a se fazer. E, se os Estados Unidos estão há 10 anos sem sofrer um atentado, se bin Laden e Saddan Hussein foram para o inferno, há pouco o que criticar. Talvez a demora em enviar mais tropas para pacificar o Iraque quando os locais começaram a mandar tudo pelos ares. Os símios antiamericanos ainda hoje dizem que a invasão do Iraque se deu porque os Estados Unidos queriam petróleo. Sim, faz todo o sentido: gastar trilhões de dólares para ganhar alguns bilhões.

O novo guia da humanidade, Barack Obama, o homem que governa pelo Twitter, elegeu-se prometendo fechar a base de Guantánamo e acelerar a retirada das tropas no Iraque e no Afeganistão. Não o fez porque era impossível. Mas o discurso vazio serviu, durante algum tempo, para atrair a patota que acha possível derrotar o terrorismo com faixas e cartazes pedindo paz. A exaustão por 10 anos de guerra, as turbulências econômicas e a dificuldade em ver as conquistas objetivas das intervenções militares levaram o povo americano a fraquejar. É compreensível. Mas, aparentemente, os Estados Unidos perceberam que a luta contra o terrorismo é uma batalha que só se vence com resiliência – e alguns mísseis Tomahawk na cabeça de quem merece.

Os brios de julho

Há uma beleza singular na dignididade da derrota. Em certa medida, só há verdade na derrota, como só há verdade na morte.

A burrice bem intencionada hoje se divide em várias frentes. Duas delas são o pacifismo infantil e a glorificação de revolucionários criminosos, como se qualquer revolução legitimasse a si mesma.

O levante constitucionalista de 1932 se situa num ponto que lhe dá autoridade moral sobre ambas as visões de mundo.

É um enredo que não se esgota: o povo subjugado, a luta pela democracia, a instransigência em nome da lei, a traição de quem havia prometido apoio, o insucesso da empreitada, a guerra de trincheiras, a resistência palmo a palmo, o armistício.

Num outro plano, o fervor dos voluntários, o empenho da indústria local, a abnegação das mulheres, a valentia de quem enfrentava um inimigo mais poderoso.

Chama atenção, entretanto, a humildade, a serenidade e a discrição com que o tema foi tratado durante todo o tempo pelos paulistas, e com as quais o episódio ainda hoje é lembrado.

Os revolucionários de 1932 não são separatistas, como os gaúchos farroupilhas, nem trabalham a serviço de uma tirania estrangeira, como os comunistas. Não prometem o paraíso na terra e nem uma outra utopia assassina. Não estão a lutar para impor sua superioridade. Lutam por uma Constituição.

São cidadãos que acharam legítimo pegar em armas para defender a lei. Não há mitificação, não há engrandecimento. No desfile deste 9 de Julho, na capital de São Paulo,  haverá bandeiras do Brasil. Haverá, em frente ao obelisco do Ibirapuera, um desfile com as flâmulas de cada estado do país. Porque o levante paulista foi, sobretudo, um levante nacionalista. O resto do país, entretanto, preferiu ficar ao lado de Getúlio Vargas.

Os veteranos de 1932 são heróis, naturalmente, cada vez menos numerosos. O mais destacado deles continua sendo Gino Struffaldi. Aí está ele, três anos atrás, aos 94 anos, declamando um poema em honra aos constitucionalistas.

O olhar do capitão Gino tem a mesma firmeza de ideais que moveram a ele e a milhares de jovens paulistas. Por tudo o que representa o 9 de Julho, é preciso por-se em silêncio um minuto, neste sábado, pelos heróis – anônimos, sobretudo – que não se omitiram e nunca cobraram glória nenhuma por isso.

A catedral em que não se reza

O declínio da Igreja Católica, principalmente no primeiro mundo, é um processo antigo e tem causas diversas. Mais do que isso, é o cumprimento da profecia na qual os católicos acreditam.

O problema começa quando parte da Igreja acaba fazendo o jogo dos inimigos e acelerando a própria derrocada, em busca de uma popularidade ilusória. O fenômeno brasileiro dos padres-cantores é uma distorção causada por essa tentativa de empobrecer o discurso do catolicismo. A catedral de Washington dá outro exemplo, em um contexto diferente, de como a modernidade pode varrer da Igreja seu conteúdo espiritual.

Na nave central do gigantesco templo, há uma faixa de isolamento, já bem próxima do altar. E uma faixa que restringe as manifestações religiosas “Worship only beyond this point”. A lógica se inverteu: o espaço para cultos e orações é restrito. A prioridade são os turistas.

E os turistas aparecem, depois de pagar os cinco dólares cobrados como “doação”, mas que só o seriam de fato se a taxa não fosse obrigatória. A igreja de portas abertas a todos ficou no passado. Dentro e fora do templo,vi também serem organizados eventos que nada tinham a ver com a religião.

A catedral de Washington abriga ainda uma grande loja de souvenirs. Basta lembrar da irritação de Cristo com os mercadores do templo para concluir que talvez esta não seja uma boa ideia.

Mas o pior é o tipo de produto vendido lá. Junto com medalhas e publicações católicas, estão livros sobre budismo e meditação indiana. E obras como “O Evangalho dos Beatles”, que não tem nada de evangelho. O livro lembra apenas como os integrantes da banda usaram as drogas alucinógenas como um elemento de aproximação com seitas orientais.

A loja oferece também uma camiseta humorística, listando razões para ser católico. Uma delas é a possibilidade de tomar vinho todo domingo. O sacramento mais importante da Igreja banalizado por uma piada. Não precisava.

A própria Igreja Católica americana deu um belíssimo exemplo de como renovar sua mensagem sem apelar à imbecilidade: a campanha Catholics Come Home produziu vídeos de uma sensibilidade elevadíssima. O principal deles só precisa de dois minutos para desmontar todo o preconceito anticristão ao qual tem se entregado o Ocidente:

Não sou católico, mas vejo que o papa Bento XVI tem demonstrado consciência de que não adianta a Igreja se transfigurar para atrair fiéis porque, assim sendo, vai ter templos cheios mas deixará de ser a Igreja. Que a catedral de Washington (segundo uma pesquisa recente da Gallup, a região onde há mais esquerdistas nos EUA), seja uma desonrosa exceção.

A inquebrantável crença no nada

A cena é a seguinte: dois investigadores, numa cena de homicídio, discutem quais são as hipóteses para o assassinato. Só há um corpo e algumas marcas de bala. Nada de testemunhas. O autor do crime fugiu. Subitamente, um perito adentra o local. Murmura algo como “néscios” e “ignorantes”. Fiel às leis da ciência, recolhe um projétil e, vitorioso, sentencia:

- Ora, o sujeito morreu porque esta bala de revólver .38 atravessou a cabeça dele!

Deixa o local com indisfarçável ar de superioridade e vai terminar de ler o último livro de Richard Dawkins.

Qual atitude convém aos investigadores? Iniciar um infrutífero debate com o colega extravagante ou ignorar o fato e continuar a tentativa de compreender o crime?

Este é o dilema de qualquer um que aceite discutir honestamente com os neo-ateus, filhotes de Dawkins, os materialistas de internet.

É possível replicar essa lógica rasa de forma infinita. Por que Dilma Rousseff venceu as eleições? Porque teve mais votos. Por que o avião da Gol caiu? Porque a força do empuxo deixou de ser suficiente para vencer a gravidade. Por que o Botafogo foi campeão brasileiro de 1995? Por que, na final, fez mais gols que o Santos.

São todas explicações de alguma forma verdadeiras, mas obviamente insuficientes para abarcar a dimensão mais ampla dos fatos.

É a este tipo de argumento, contudo, que se prendem os fieis de Sam Harris e Daniel Dennet. É gente que, se encontra a mulher em pleno intercurso com o carteiro, não se aborrece e convida amigavelmente o sujeito para tomar um café, já que a Biologia pode explicar perfeitamente o ocorrido.

Com a religião, a situação é ainda mais complexa. Se a ciência se dedica a explicar os fenômenos da natureza, jamais alcançará qualquer explicação sobre Deus – que, por definição, é uma entidade sobrenatural.

É perfeitamente possível e lógico não acreditar que Deus existe. O problema passa a existir quando alguém acredita cegamente que Deus não existe.

Para saber se há alguém em minha casa, preciso vasculhá-la por inteiro. Se, ao entrar na sala, encontro lá a minha avó, a conclusão é justamente essa: minha avó está em casa.

Se, por outro lado, alguém checa apenas a cozinha e diz que não há ninguém em casa, esse depoimento tem menos valor do que o meu. Por um simples motivo: quem constata a existência de algo pode dizer que esse algo existe, mas quem não constata a existência de algo não pode garantir que esse algo não existe.

E, obviamente, o ser humano nem mesmo sabe onde ficam os limites do Universo e jamais dominará todos os campos do conhecimento. Por isso, só existem duas respostas honestas à pergunta “Deus existe?”

- Sim;
- Não sei (que até pode incluir um “acho que não”).

Adianta explicar isso? Não adianta.

Logo surge outra reportagem mostrando que os cientistas detalharam a área do cérebro que é ativada quando o sujeito alega estar em contato com Deus. E aí o cientista mal-intencionado e o repórter ingênuo unirão forças para proclamar ao mundo que, naturalmente, tudo não passa de reações químicas. Assim como um homicídio se limita à interação entre um projétil e um crânio qualquer. Assim como a mulher de Sam Harris uniu-se ao carteiro por influência da oxitocina.

Não existe oposição entre razão e fé. Aliás, onde é mais fácil encontrar apreço pela verdade? Num ensaio escrito pelo papa ou num livro de Dawkins e sua turma? A resposta está disponível para qualquer um que se disponha a fazer uma comparação simples. Quando ainda era o cardeal Ratzinger, Bento XVI – já o maior teólogo do mundo – escreveu um livro chamado Introdução ao Cristianismo, em que se dedica a explicar como a dúvida é parte essencial do processo de evolução espiritual de um cristão. Já os materialistas da nova geração não têm questionamentos; estão muito ocupados pregando ao mundo sua inquebrantável crença no nada.

O eterno recomeço

Este texto, com poucas mudanças, é o mesmo que escrevi para o especial de Natal do podcast da querida lusa Margarida. Serve para cá também

O Natal vem aí. E vejo muita gente dizendo que o 25 de dezembro carrega uma certa hipocrisia porque nos põe a abraçar pessoas das quais não gostamos ou com as quais não convivemos.

Não sou especialista em lógica, mas acredito que se reconciliar uma vez é melhor do que não se reconciliar, e abraçar alguém anualmente é melhor do que nunca fazê-lo. É melhor ajudar os pobres a cada 12 meses do que ignorá-los eternamente.

Aliás, a essência do Natal é justamente essa: superar nosso orgulho, nossa soberba e nossos ressentimentos. Ninguém precisa perdoar alguém que nunca errou. Fácil, não é. Mas exatamente por isso nós fazemos um esforço adicional na data mais importante do ano.

Ao mesmo tempo, uma porcentagem considerável das pessoas acha a época de Natal muito aborrecida, depressiva e melancólica. Talvez porque sintam falta de alguém que já não está mais por aqui. Será que o 25 de dezembro pode causar em algumas pessoas um efeito inverso ao programado – aumentar a angústia da alma em vez de combatê-la?

Pelo contrário. O ressurgimento da esperança só pode ocorrer para quem já a perdeu. E, se Deus concedeu a cada homem uma oportunidade de redenção dos pecados e a promessa de uma vida eterna, todos os demais problemas perdem a importância.  É disso que se trata o Natal: uma vez por ano, as coisas ganham um senso de proporção adequado.

Uma vez por ano, a história do menino que nasceu numa manjedoura nos afasta de nossa incontornável trilha de egoísmo, soberba e materialismo. E nos lembra que, mesmo quando parece difícil, sempre há uma oportunidade de recomeçar. Jesus Cristo renasce a cada ano e nos dá a chance de fazer o mesmo.

Feliz Natal.

Um herói

Recebo só hoje a notícia de que Abrahão Yazigi, veterano da Revolução de 1932, morreu em 30 de novembro. Curiosamente, a informação me chega no momento em que leio o livro Os Heróis, de Paul Johnson.  O revolucionário,  estudante de engenharia que interrompeu o curso na USP para lutar no levante, poderia ter um capítulo só para si.

Falar da Revolução de 1932 é uma experiência curiosa. Sempre que tento escrever sobre este assunto, o texto soa como ufanista. Mas é um tom apropriado para uma história memorável. Composta sobretudo de histórias individuais de coragem. Como a de Abrahão. Doutor Abrahão.

Vivo numa cidade onde a maior ambição das pessoas é se transformar num funcionário público e passar o resto da vida na escuridão da ignorância, às custas do estado e se esquivando de qualquer esforço por nada que não seja o dinheiro público. Por isso, o exemplo do doutor Abrahão Yazigi ainda me impressiona.

O levante de 1932 foi uma atitude altiva, de um povo que lutava por uma causa justa mas ainda parece um tanto quanto envergonhado de se orgulhar dos próprios feitos.

Quando os gaúchos comemoram a fracassada Revolução Farroupilha, estão nos dizendo que continuam querendo se separar do Brasil – e ninguém se separa por se achar inferior. A Guerra Civil de 1932 tinha uma causa justa.

Os voluntários paulistas se embrenharam num esforço de guerra que mobilizou a indústria do estado e comoveu até mesmo as senhoras da alta sociedade, que doavam suas joias para financiar os combates Foram quase mil mortos, a maior parte do lado revolucionário. São Paulo lutava pela democracia. Tentava derrubar um ditador em formação, Getúlio Vargas, e convocar uma Assembleia Constituinte. Sem o prometido apoio de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, a empreitada falhou.

Foi o doutor Abrahão quem me chamou a atenção para um detalhe: a revolução já estava perdida depois do primeiro dia. Sem conseguir chegar ao Rio de Janeiro, capital do país, as tropas não tinham mais como derrubar o governo. Ainda assim, e mesmo traído, São Paulo batalhou altivamente durante três meses. A essa altura, a revolução já estava militarmente derrotada porque, em vez de avançar, as tropas paulistas recuavam dentro do próprio território. Surgiu uma guerra de trincheiras. Mas às vezes, me ensinou o doutor Abrahão, um guerreiro não luta por outra coisa senão sua própria honra.

Um mês antes de morrer, o veterano, filho de sírios,  foi homenageado pelo Instituto de Engenharia de São Paulo e discursou diante do prefeito Gilberto Kassab. Quando aceitou receber um desconhecido estudante de jornalismo em seu confortável apartamento no Morumbi, no ano passado, apresentou-se humilde, diminuiu os próprios feitos. Falava seis línguas além do português: inglês, francês, alemão, italiano, holandês e árabe.

Homenagem a soldados constitucionalistas em Campinas

Eu havia ligado, dias antes, para marcar a entrevista. Ele pediu um tempo para que pudesse reavivar as memórias. Separou recortes de jornal e trechos de um pequeno livro que escreveu – uma espécie de autobiografia destinada apenas às pessoas mais próximas. Abrahão, sempre sereno, nunca perdeu a lucidez.

O poema que dá nome a este blog conta a história de uma trincheira imaginária, do soldado que não se entregou até o último momento. Este soldado bem poderia ser Abrahão Yazigi, que lutou até o último dia no front sul, o último a cair. Ele embarcou no último comboio de volta para a capital.

E o esforço valeu a pena?, perguntaria o covarde pragmático – o pior tipo de covarde. Sim, valeu. Se houvessem desistido em um dia, os paulistas teriam se transformado em motivo de chacota e fortalecido  o regime ditatorial. Depois da brava resistência, Getúlio Vargas cedeu: convocou a Assembleia Constituinte – que, dentre outras conquistas, asseguraria o voto feminino.

A militância política hoje é, hoje, monopólio da esquerda. E transformou-se na mera luta pelo poder, custe o que custar. O tipo de política feito por Abrahão, um democrata nato, morreu.

Os vagabundos que enfrentaram o regime militar com armas lutavam por uma ditadura pior. Nos obrigam a sustentá-los com nosso dinheiro. E passaram a vida brigando para por as patas no poder.

Os heróis de 1932 pagaram pelos próprios riscos. E, cumprido o dever, retomaram suas vidas. Terminada a batalha, doutor Abrahão Yazigi voltou à faculdade. Formou-se, criou filhos e netos.  O heroísmo reside precisamente nesta postura.

Doutor Abrahão costumava lembrar que a Revolução foi um episódio de circunstâncias únicas. “Nosso tempo já passou”, repetia.

Se tivesse tombado em combate em 1932, Abrahão Yazigi Filho teria vivido apenas 23 anos. Deus recompensou-o com uma vida proporcional ao tamanho da coragem que sempre ostentou.

P.S: Depois que postei esse texto, descobri que Francisco Mascaro, veterano de Campinas, morreu 25 dias antes do doutor Abrahão. Tinham a mesma idade. Mascaro também foi herói: quase morreu de pneumonia, foi salvo por sorte. Assim que se recuperou, voltou ao combate.

O dinheiro é meu; a liberdade é minha

Sempre que se começa a falar mal do governo, a discussão acaba caindo naquele argumento de que o serviço oferecido é péssimo em relação aos tributos que nós pagamos. O que é verdade. Curiosa é a saída usada pela maioria das pessoas quando criticam a situação: “Se eu tivesse saúde, transporte e educação de qualidade de graça, aceitaria pagar impostos até mais altos”.

Em primeiro lugar, o sujeito comete uma contradição lógica. Como é de graça se ele paga?

Em segundo lugar, e parece que pouca gente percebe, isso é uma forma assustadora de abrir mão da própria liberdade. O camarada acredita piamente que gente como Erenice Guerra e Durval Barbosa gerencia as finanças dele melhor do que ele próprio. Os melhores funcionários públicos do país são preguiçosos. Os outros são ladrões. E eu quero gastar o meu dinheiro como quiser.

Acho, aliás, que o fato de entregar 40% do meu dinheiro nas mãos de burocratas é uma forma clara de furto mediante fraude. Artigo 155 do Código Penal. Dois a oito anos de cadeia. Eu nem recebi meu salário e o governo já pôs a mão!

Não sei se esse discurso padronizado dos brasileiros é resultado de uma doutrinação estatista nas escolas ou tem raiz mais profunda. Mas as coisas são muito simples: o regime em que você dá suas riquezas para o estado e recebe (em tese, e somente em tese) todos os serviços públicos de graça chama-se socialismo. Aquele mesmo, que nem Fidel Castro defende mais.

O estado não pode prover tudo ao cidadão sem que antes o cidadão ceda tudo ao estado, inclusive a própria liberdade. Não creio que a troca compense.

A maluquice chega a tal ponto que o governo quer monopolizar até mesmo a caridade, virtude pessoal e intransferível. É como nos ensinava o Cristovam Buarque: “Não dê esmola, dê cidadania”. Ou seja: se o sujeito está morrendo de fome, não dê dinheiro a ele; entregue para nós. E aí, quem sabe, se você doasse 100 reais, a máquina estatal depositaria um trocado na mão do pobre pedinte.

Essa postura comum entre os brasileiros – e não só entre nós – é parte de um pensamento que alimenta o autoritarismo. O sujeito que fica louco para dar o dinheiro dele para o governo também não se preocupa em votar num candidato que persegue a oposição, tenta calar a imprensa ou desrespeita as regras do jogo. Desde que o cidadão receba o que quer – pode ser um lote, um plano de carreira na carreira medíocre de funcionário público ou uma rua asfaltada – não vai ligar para o resto.

Claro que, nesse momento, os nossos amigos estão citando o exemplo de países como Suécia e Dinamarca, que cobram impostos altíssimos. Uma flagrante inversão da relação causa-efeito. É como se, para ficar rico como Bill Gates, eu começasse a gastar como ele. Bill Gates gasta muito porque é rico e não é rico porque gasta muito.

Simplificando a coisa, existem duas formas de lidar o estado: a do caipira americano, que anda com um rifle embaixo do braço e vê com desconfiança qualquer iniciativa que venha do governo, e a do agricultor francês, que não planta um pé de alface sem subsídio.

Eu fico com a primeira opção. Só falta o rifle.

Reconhecimento

Há um post novo aqui embaixo. Vai lá. Mas antes, uma homenagem à equipe mais corajosa do jornalismo municipal, estadual e – por que não? – distrital: a CBN Brasília.

Saí mas, tal como Maicosuel antes de ir para o Hoffenhein (lembra?), prometo voltar para conquistar títulos.

Esse é uma parte (não necessariamente a melhor) da equipe. A quem agradeço de novo, agora em público: muito obrigado.